DEUS ESTÁ FALANDO? COMO POSSO SABER?

 Como é fácil enganar o povo!

Por: Marcos Tuler




    Está cada vez mais comum aparecer na timeline das redes sociais certos "caras de pau" (sem-vergonhas) falando em línguas estranhas e profetizando para todo mundo. É uma profetada atrás da outra. Todas generalistas! Isto é, "Deus pode estar falando" para qualquer pessoa que estiver assistindo a live ou para todas ao mesmo tempo. As mensagens são gerais; não há qualquer especificidade de conteúdo, quer para o vaticínio de abençoadas promessas quer para as inusitadas advertências.

    Pior ainda é ler os assentimentos nas centenas de comentários: "fala Deus", "amém", "recebo", "glória a Deus", "vaso de Deus", e por aí afora.

    Gente, não é possível que haja irmãos tão crédulos e tão incautos no nosso meio! Basta conhecer o mínimo das Escrituras para se rechaçar todas essas incoerentes e escandalosas charlatanices.

    Sei que estou me arriscando a ser chamado de incrédulo ou crente frio. Mas como educador cristão não posso me calar. E esse caras atraem milhares de seguidores...

    Isso é tão sério que tive de me desfazer de uma amizade no Facebook, por conta de um camarada que ficava o tempo todo profetizando nas chamadas "lives". As "profecias", intermeadas de línguas estranhas e sem interpretação, a maioria das vezes, eram ameaçadoras e não tinham o menor lastro bíblico.

    Fico pensando como alguém pode ter coragem de fazer isso e ser aprovado e aplaudido por quantidade significativa de pessoas. Estamos vivendo em uma época em que os crentes têm preguiça de estudar, ler a Bíblia ou bons livros. Querem apenas divertimento e distração! Querem o que é mais fácil! É a tal religião líquida de Zygmunt Bauman.

    É difícil para um educador cristão assistir a tudo isso e ficar calado. Minha vontade é entrar nessas lives e dar uma "sacudida" no indivíduo e desmascará-lo. Mas, temo ser apedrejado virtualmente; e com milhares de milhares de pedras...

    Isso tudo me faz lembrar de uma experiência que tive há alguns anos. Vou relatá-la pra vocês e depois fazer algumas aplicações levando em conta a extrema necessidade do dom de discernimento espiritual em nossos dias.


Prestem atenção nessa história!


O culto de oração transcorria normalmente: os irmãos entoavam louvores, oravam, testemunhavam, e o Espírito Santo operava sobremaneira através da manifestação genuína dos dons espirituais. 

        Tudo parecia natural como sempre, até que, de súbito, alguém prorrompe o silêncio “falando em línguas” em alta e estridente voz.

        Tratava-se de um homem forte e bem afeiçoado, porém, estranho àquela comunidade; não havia sequer um irmão que o tivesse visto por aqueles arredores.

        Sem nenhum constrangimento, o inusitado visitante gritava sem parar, forçando a congregação a ficar em silêncio para ouvi-lo.

        Sempre em línguas, “especialmente estranhas”, intercaladas com frases em deficiente português, falava o aparatoso “vaso” como se tivesse autoridade divina, esbravejando seus ameaçadores vaticínios sobre aquele humilde rebanho.

        Não fosse a arrogante postura e as estranhas manifestações, não causaria nenhum espanto, o fato de alguém falar em línguas e profetizar durante um culto pentecostal. Entretanto, a situação não era nada familiar. À medida que o culto se desenrolava, as constantes profecias tornavam-se cada vez mais sinistras e divorciadas da verdade bíblica.

        A igreja já estava dividida em várias opiniões: muitos, acreditavam que tais manifestações eram mesmo provenientes do Espírito Santo. Pelo que, respeitavam e, intimidados, diziam uns para os outros: "é do Senhor! É do Senhor!"

        Outros, incomodavam-se, mas, para não serem considerados menos espirituais, preferiam não fazer alarde.

        Estaria aquele homem sob influência de algum espírito maligno? Ou seria simples manifestação da carne? Se não era demônio, quem demoveria aquele ardiloso e frenético canastrão de seus caprichos egocêntricos? Quem teria coragem de duvidar de um “profeta de fogo”?

        Finalmente alguém reage corajosamente desbaratando a “festa”: chega! “Vamos acabar com essa farsa!” – Era um velho pastor conhecido na região.

        Em meio aquela fragorosa balbúrdia, pois já engrossava o coro dos que veneravam o tal “profeta”, aquele pastor, que em outras ocasiões manifestara o dom de discernimento, levantou-se num rompante e pôs-se a cantar um hino; de modo que abafava a temerosa voz do desvairado mensageiro do engano. Ato contínuo, à medida que aquela ruidosa “voz profética” insistia em deflagrar seus ardis; e desta vez com ameaças de castigos e morte, mais alto ainda, o pastor cantava. Nesta altura, como era de se esperar, o povo, desiludido, unia-se ao servo de Deus num cântico arrebatador.

        Diga-se de passagem: naquele momento, o pastor  discernia que aquelas manifestações não eram de Deus. O que se presenciava era uma forte expressão do ego humano, que trazia àquele homem um enorme desejo de ocupar o centro das atenções e fingir profunda espiritualidade. 

        O desfecho deste episódio não poderia ser outro: desmascarado e humilhado aquele homem nunca mais retornou àquela igreja.

        Creio que a partir deste relato, o leitor já tenha entendido o significado e a importância do dom de discernimento espiritual. Porém, para que fique ainda mais claro, exporei algumas ideias e argumentos baseados na Palavra de Deus.

         A palavra discernimento é derivada de um termo grego que significa “julgamento completo”. Conceitualmente, é a capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo aos crentes com o objetivo de habilitá-los a identificar a procedência das operações espirituais. Em outras palavras, o Espírito Santo dá a capacidade de distinguir os espíritos de modo que possamos reconhecer se uma manifestação veio da parte dele, ou se de um espírito de demônios, ou se é da carne.

        O dom de distinguir os espíritos evitará que sejamos vítimas indefesas do logro espiritual. Este dom pode operar em e através de um crente cheio do Espírito Santo (1 Co 2.12-15). Não deve ser confundido com um espírito crítico natural, que é da carne e não do Espírito.

        O Dicionário Teológico, publicado pela CPAD explicita:

“Para se discernir os espíritos, as faculdades humanas são insuficientes; é indispensável a capacitação do Espírito. O discernimento de espíritos independe das operações intelectuais; depende única e exclusivamente da iluminação divina”. Por exemplo:

Jesus sabia quando Satanás era a causa das enfermidades (Lc 4.33-35;Jo 5.14).

Pedro reconheceu que Simão era dominado por um espírito maligno (At 8.18-23).

        A incursão de falsos profetas, usados ou não por espíritos malignos, nas igrejas não é coisa nova. As comunidades cristãs primitivas sofriam com estes ardilosos deturpadores da obra. Causavam tremenda confusão na igreja, desvirtuando principalmente os neófitos na fé. Infelizmente, como nos primórdios, algumas igrejas se mostram inocentes e infantis quando aceitam de forma passiva qualquer manifestação aparentemente sobrenatural.

        A maioria entre nós não tem consciência da grande quantidade de atividade espiritual que ocorre ao nosso redor a todo tempo. O dom de discernir ou distinguir os espíritos permite um breve relance nesta dimensão invisível, dando ao crente poder para julgar qual espírito está sendo usado.

        Talvez nenhum outro dom seja mais necessário na igreja, hoje em dia, do que esse, numa época em que tantas igrejas se têm transformado em potenciais shows místicos e mágicos, conturbando as mentes dos incautos.

        A Palavra do Senhor nos adverte: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito: antes, provai os espíritos, se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora” (1 Jo 4.1).

 

Prof. Marcos Tuler

 

 

 

 


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